Um ano após ouro, Robson Conceição vira profissional e cobra promessa de governador

Baiano aguarda cumprimento de promessa de núcleos de boxe.

Governador da Bahia, Rui Costa, com Robson Conceição e a esposa do boxeador, Érika Conceição (Foto: Carla Ornelas/GOVBA)

No Pavilhão 6 do Riocentro não há nenhum sinal de que um ano atrás o Brasil alcançou o seu maior resultado no boxe olímpico. Os gritos alucinados da torcida naquela tarde de agosto fazem parte da lembrança de Robson Conceição, medalha de ouro na categoria peso leve, até 60kg. No espaço aparentemente vazio uma imensa cortina preta esconde uma arquibancada instalada posteriormente para eventos do centro de convenções. O ringue onde o baiano de 28 anos bateu por pontos Soufiane Oumiha, sob os gritos de “1, 2, 3, porrada no francês”, ficava no meio. Desde que virou profissional e abdicou do carreira olímpica, Robson venceu seus quatro combates. O título mundial é objetivo para o fim de 2018. Enquanto se prepara para as próximas duas lutas neste ano, ele tenta ajudar projetos ligados ao boxe e cobra do governador da Bahia, Rui Costa, do PT, a promessa da construção de um centro de treinamento de boxe.

Volta ao Riocentro

“Passou um flash na cabeça de cada momento, cada segundo do público torcendo por mim quando eu tava aquecendo antes de entrar pra luta. Tenho noção que o ringue foi bem no centro. O senso de direção não dá pra perceber hoje.”

Ouro após cair nas estreias em 2008 e 2012

“O que mudou foi o foco e a experiência. A gente vai amadurecendo mais, faz o trabalho da maneira certa, e isso me levou ao ouro olímpico. As lutas foram bem difíceis. Eu tava bem preparado, concentrado e preparado psicologicamente. Lutei contra adversários mais fortes, como o do Uzbequistão (Hurshid Tojibaev), pra quem eu já tinha perdido uma vez. Perdi uma e ganhei outra. No Rio foi o desempate, assim como o cubano (Lazaro Alvarez) também. Treinei muito bem em Salvador, na academia Champion, tive uma base aqui no Rio de Janeiro, na Urca, e isso me fez ficar bem melhor preparado pra trazer o ouro.”

Segurou o riso

“Nesse momento do ‘1, 2, 3, porrada no francês!!!’ eu me desconcentrei um pouco, não teve como. Quase que eu ri lá em cima do ringue (risos). Foi lá pelo meio para o final. Sabia que estava ganhando, que estava dominando a luta. Já pensou eu rindo, tomar um porradão e terminar a luta (risos). Mas graças a Deus consegui segurar o riso, continuar focado e sair com a vitória e depois comemorar com a esposa. Um momento único. Eu estava muito focado. Até celular eu desliguei. Ganhei um celular que eu usei pra me comunicar com a minha esposa. Fiquei fora de mim nos Jogos. Só saía da Vila dos Atletas pra me alimentar, treinar e competir. Não aproveitei nada na Vila, nem vi como era.”

Carnaval fora de época

“Assim que eu cheguei em Salvador dos Jogos Olímpicos tinha um público no aeroporto, no meu bairro, que acho que nem no carnaval não tem. Pode pesquisar e ver a foto do meu bairro, Boa Vista de São Caetano. O bairro tava fechado, parecia um formigueiro de gente.”

Reconhecimento

“Isso mudou da água pro vinho. Hoje onde eu vou a torcida me reconhece, pede pra tirar foto. Pra mim é muito gratificante ver que o meu desempenho tá sendo visto pelo público que sempre acreditou em mim e me incentivou bastante. Graças à minha medalha eu fui visto pela Top Rank e hoje ela agencia a minha carreira. Incentivo brasileiro zero, nada. Ganho bolsas pras lutas e mensalidade da Top Rank (empresa que passou a gerenciar a sua carreira).”

Promessa do governador

“Logo depois dos Jogos Olímpicos eu tive uma proposta do governador da Bahia (Rui Costa) de criar vários núcleos de treinamento e um centro pra competições. Há um ano venho esperando essa promessa ser cumprida, e nada. Eu seria embaixador e representante dessas bases. Seria uma maneira de expandir ainda mais o boxe, tirar os jovens do caminho errado e um dia, quem sabe, poder representar o nosso país. Eu espalhei isso e onde eu vou sou cobrado. ‘Campeão, e aquele projeto que governador prometeu, como tá? Vai acontecer?’. Eu fico surpreso, não sei o que responder. O que nos resta é esperar. Ele (o governador) veio de família humilde, de favela, como eu vim. Esperava que ele faria isso. Mas é política, fazer o quê?”

O GloboEsporte entrou em contato com a assessoria de imprensa do governador Rui Costa, mas não obteve resposta.

Inspiração para a molecada

“A Bahia é o celeiro do boxe. a Cuba brasileira. Inclusive na academia Champion tem o projeto Campeões da Vida. Só precisa de oportunidade de ser visto e reconhecido. Hoje tem muitos meninos que se inspiram em mim e procuram academia para treinar. Hoje em dia, em Salvador, tá lotada (de alunos em academias).”

Apoio público

“Nas academias de Salvador não tem dinheiro público. Cada um faz o seu. Eu ajudo um projeto por amor. Tiro do meu pra ajudar o próximo. Com material, dando aula. Tinha que ser o contrário. O governo ajudando e incentivando. Tem o projeto do (Luiz) Dórea, o Campeões da Vida. Ele tira do salário dele pra ajudar os meninos. Reformar a academia, dar um material, dar transporte. Isso é algo que deveria ser feito pelo governo, pela prefeitura.”

Campeão mundial

“Tô começando a aumentar o número de rounds. Na última luta foram 6, na próxima vão ser 10, até chegar a 12. Vou ter mais duas lutas esse ano. Cada adversário que eu pego é cada vez mais duro. O objetivo é lutar pelo título mundial no fim do ano que vem.”