Bloco carnavalesco promete agitar a festa de Momo em Jacarezinho

Bloco Bateria Capiau vai apresentar o enredo “Sonhar, plantar e colher: Bateria Capiau, novo celeiro de bambas”

Bateria Capiau se apresenta como expressão máxima do samba universitário – Foto: Divulgação

Estreante na avenida do samba, o bloco Bateria Capiau pretende levar à rua Paraná, a relação do homem do campo com a Universidade. O grupo, que já é tradição em festas, jogos e desafios de baterias universitárias, emerge no cenário carnavalesco de Jacarezinho com intuito de somar forças juntos às escolas de samba da cidade e manter a tradição de realizar um dos melhores carnavais de rua do estado. O Bloco conta com cerca de 50 integrantes e, mesmo com poucos recursos financeiros, pretende apresentar o enredo “Sonhar, plantar e colher: Bateria Capiau, novo celeiro de bambas”.

Um dos coordenadores do grupo, o diretor de Cultura da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), James Rios, comenta sobre o processo de concepção do enredo. “Somos uma população interiorana notadamente marcada por traços culturais rurais. No processo de criação do enredo, buscamos resgatar as memórias – já quase perdidas – de nossos pais e avós. Precisamos nos reconectar às nossas raízes, de onde subjazem a força de trabalho do homem e da mulher do campo, bem como as festas e os hábitos que atravessam, por tabela, as nossas memórias”, disse.

Ainda com configuração de Bloco, o grupo, segundo Rios, tem a pretensão de ser uma agremiação estritamente organizada, a fim de resgatar a cultura local/regional em seus enredos. “Não temos, obviamente, condições estruturais de desfilarmos como escola de samba. Por isso, resolvemos nos organizar como bloco em potencial para se tornar uma agremiação maior no próximo ano. Embora nos enquadremos nessa configuração, vamos levar para a avenida uma comissão de frente, bateria, uma ala e uma alegoria. Vamos apresentar à população um trabalho sério e muito comprometido com a nossa festa popular”, finaliza.

ORÇAMENTO – A Bateria Capiau tem conquistado a confiança da comunidade. Segundo os coordenadores artistas plásticos, músicos, professores, atores e membros da comunidade têm estado no Galpão Cultural da UENP contribuindo com o processo de criação artística para o desfile. “Estamos muito felizes por poder contar com o apoio da comunidade e da Universidade. Para não dizer que estamos começando do zero, recebemos uma doação de materiais do artista plástico Jucelino Biagini, a quem somos muito gratos. Ele e outros artistas têm se juntado a nós para reciclar e reinventar o que é possível. Estamos nos esforçando para apresentar à comunidade uma nova proposta de carnaval”, afirma Alfeu Junior, presidente do Bloco.

Junior ainda comenta sobre a dificuldade de se fazer o carnaval sem recursos financeiros que possam viabilizar as costuras das fantasias e outros serviços que não estão ao alcance da comunidade. “Há coisas que fogem da nossa alçada. O serviço de costura é uma delas. Temos buscado apoio junto aos comerciantes locais para viabilizar a confecção de fantasias e também recursos que possam financiar a compra de aviamentos e outros materiais que ainda nos faltam”.

Financiado pela prefeitura de Jacarezinho, as escolas de samba recebem materiais para organização do desfile. Na condição de Bloco, a Bateria Capiau não teve acesso ao subsídio que já estava, desde o ano passado, destinado às escolas de samba. “Não tivemos acesso aos recursos ou materiais que pudessem complementar o nosso desfile, o que limita – e muito – o nosso processo de criação. Mas precisamos lembrar e agradecer à Prefeitura pelo repasse das camisetas que teremos que fazer virar dinheiro para o custeio de nosso desfile. É algo incerto, mas é o que temos.  Não vamos desistir de levar para rua o nosso sonho, até porque, desde o início, o nosso projeto sempre projetou a não dependência do poder público”, finaliza.

Hoje, a agremiação possui em caixa R$800 de patrocínio recebido de diversas empresas de Jacarezinho. O orçamento total do desfile está estimado em R$ 2 mil. A comissão organizadora do Bloco pretende arrecadar, nos próximos dias, todo o montante. Aqueles que desejarem contribuir poderão entrar em contato com os organizadores, por meio dos telefones (43) 9 9912-3167 (43) 9 9104-7804.

SINOPSE – Fruto de um misto processo da colonização, Jacarezinho, desde os primórdios de sua existência, tem assentada sua riqueza no setor agropecuário. É o homem do campo que, com seu esforço e tamanha dedicação, alimenta, emprega e gera renda para grande parte do contingente populacional, que é abençoado pela fertilidade de sua terra e pela abundância de seus recursos naturais. Por isso, a bateria não pensou duas vezes para fazer esta homenagem, abordando também o êxodo rural, que se deu em virtude das novas oportunidades que as primeiras faculdades e institutos educacionais que Jacarezinho oferecia aos munícipes.

Em meio a esse processo, emerge a presença monumental das faculdades de Filosofia e Direito, colaborando, veementemente, com o cenário intelectual e, sobretudo, cultural da cidade. É a partir desse movimento que se pode observar o surgimento das manifestações artísticas nas artes plásticas, na música, no cinema (Pão de Açúcar, 1957) e da literatura (“Frutos do Mato”). Nomes como Joãozinho Caldeira, “o poeta do barro”; Edmilson Donizetti, Raymundo Honorato, Remador e Canoeiro figuram entre as personalidades artísticas que evocam seus respectivos espaços bucólicos em suas poéticas.

Assim, o campo, quase sempre evocado como expressão memorialística por esses artistas e filhos desta terra, traduz a força do capiau nas lavouras de café e cana-de-açúcar, o que eleva, à enésima potência, a importância de sua cultura. Catalizadora de expressões a artísticas, a Universidade Estadual do Norte do Paraná tem incentivado a produção e a circulação de bens culturais cuja gênese expressa seu ruralismo, por meio de apresentações, exposições, mostras e palestras. É justamente nesse contexto que a Bateria Capiau se inscreve e se apresenta como expressão máxima do samba universitário sem renegar suas raízes, sua identidade caipira. Viola e tamborim, portanto, caminham, neste Carnaval, juntos nessa ode ao sujeito capiau semeador de sonhos.

O voo, nessa perspectiva, pode e deve ser entendida como a possibilidade que o ser humano tem de projetar os sonhos para a realidade. É o desejo dos Joões e das Marias em saciar a fome com a plantação. É o sonho dos Josés e das Zeferinas em ver seus filhos formados na faculdade, com o diploma na mão e o título de doutor “debaixo dos braços”.